Apesar do peso insuportável, ao vê-la, posou. Como se quisessem ridicularizá-lo, as maquiavélicas sacolas plásticas pesavam cada vez mais. Desnecessário. Já que o próprio, franzino que é, ousou ridiculamente, uma pose que julgou máscula. Algo semelhante ao que fazem os galãs televisivos, o que definitivamente não o é.
Havia acabado de deixar o mercado, grávido das tais maciças sacolas. A moça, a quem ele sempre se limitou a admirar mudamente, sem nunca ter-lhe oferecido um bom dia por falta de coragem justificável, pois, sequer, recebeu uma descompromissada fita da mesma; aproximava-se. Ambos pisavam a mesma calçada. Os punhos de nosso herói que inicialmente tomaram veemente as sacolas, a esta altura, lutavam para mantê-las alçadas nos dedos já torcidos e marcados.
Com sua caminhada ininterrupta, respirou fundo, manteve a pose e ao fitá-la assistiu e, em seguida, atuou em uma depressiva cena. De assalto, sofreu um esbarrão. Um sujeito grave ultrapassou-o rispidamente e seguiu em direção a admirada moça. Sem que lhe houvesse tempo para assimilar os fatos, presenciou a sova: O sujeito que lhe ultrapassara, sem cerimônias, passa a dar bofetadas na pequena, que não tarda a desesperar-se. Assustado, percebe a necessidade de agir, apesar do frio que lhe invade o estômago e da desorientação que lhe toma o espírito. Conclui que deve, inicialmente, desfazer-se das incômodas sacolas plásticas. Abandona-as francamente. Em uma tentativa desesperada, arrisca imobilizar o grosso sujeito, em vão. Sem dificuldades, este lhe acotovela a cara, o que patrocina-lhe uma dor insuportável ao ponto de, já caído, não lhe haver ânimo para erguer-se. O brutamonte volta a resolver-se com a moça atordoada. Transeuntes limitam-se a desviarem-se da balbúrdia, curiosos e cautelosamente apartados. Satisfeito, o brutamonte vai-se da mesma forma que surgiu. Sem expor uma palavra. Na calçada, ao chão, as já desengonçadas e derramadas sacolas plásticas acompanham nosso casal maltratado e atônito.
De uma coisa nosso falido herói podia servir-se contente, a moça, pela primeira vez, o notara.
Elvis Marlon