Michael Jackson não morreu. Ele vive como a muito não vivia. No trombadinha, que pela primeira vez assistiu a uma de suas performances fantásticas na televisão do camelô da Central do Brasil ou do Mercado Popular de Caxias, no Meia Hora do operário, na “Quem?” da mulher do dono da fábrica, na qual trabalha o operário; no “TV Fama”, nos passos de funk que nasce no sangue dos favelados, no meu padrasto que é cinco anos mais velho que Michael e acompanhou toda sua carreira, na minha mãe que era louca por Elvis Presley mas ouviu Michael em algum momento, em mim, que nasci em 1988...
Ontem, vindo de um trabalho falido, cruzei com camelôs. Talvez este fato tenha me influenciado à citação no parágrafo anterior – Michael Joseph Jackson estava lá, preso à grade junto a outros piratas. Desde sua morte, à quatro dias atrás, eu já sonhava com isto: a chegada de Michael às feiras, às praças, aos becos da Uruguaiana, e claro, aos camelôs caxienses, pois para ir ao centro do rio, gasto “brincando”, seis reais e setenta centavos. Ao avistar “Thriller”, entrei no que em Física chamamos de movimento retardado, até chegar ao repouso. De fronte à grade “camelômica”, “marquei um dez” conferindo os DVDs. Havia quase toda a discografia do rei do pop – de anti-mão, esclareço que não sou a favor da pirataria, mas à popularização da arte. E neste contexto, devo admitir, a pirataria é populista – Após conferir a carteira, e ter certeza de que além do valor necessário para a passagem do ônibus, me havia dez reais, não hesitei. Fechei negócio. Adquiri dois DVDs de Michael. Entre eles Thriller que, segundo o camelô, figura no Guinness como o disco mais vendido da história, adquirido por mais de cento e quatro milhões de pessoas. Entusiasmou-me francamente com estas informações. Chegamos, inclusive, a discutir sobre a considerável inflação que sofreria esse número, se levada em consideração à venda pirata. Mas deixemos isto de lado. Contente com a compra, segui em direção ao ponto de ônibus. Lá, embarquei. Em casa, eu, meus irmãos e minha mãe pudemos redescobrir o admirável artista que, em nossa memória, apagava-se aos poucos, em meio a polêmicas e difamações. Foi um verdadeiro êxtase assistir à suas performances. Meu padrasto, desastrosamente, invadindo a sala num ridículo moonwalker, juntou-se a nós. E assim, permanecemos até o fim da exibição.
Qualquer coisa parecida com tristeza, tocou-me. Talvez me estivesse “caindo a ficha” da perda. Talvez à todos na sala. Disfarçamos a comoção uns para os outros, menos meu padrasto, que descuidou-se de uma lágrima.
Elvis Marlon