quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Relato de réu culpado

Linda. Apaixonei-me desde a primeira vez que a vi. Vestido amarelo. Vestido amarelo. Lindo. Todo domingo, lá estava ela: acompanhada do mesmo casal, sempre. Os parques parecem ser mais bonitos aos domingos. Ela também parecia, apesar de ser o único dia da semana no qual a via. A via e só. Sempre fui muito tímido. Não teria coragem de lhe falar qualquer coisa na frente do casal. Mas um dia tive. Por algum motivo, ela se afastou do casal. Talvez não a fizessem bem. E eu me aproximei sem que notasse. Queria declarar meu amor. Só me percebeu quando a segurei pelo braço. Sem saber o que dizer, parecia assustada. Mas ao mesmo tempo era lindo. Foi a primeira vez que nosso olhar se cruzou. E tive medo. Medo de que nosso momento fosse interrompido pelo casal. Também vi medo em seu olhar. Só podia ser pelo casal. Malditos. Sem pensar muito, agi. E fugi em direção a mata fechada com meu amor nos braços. Algo caiu pelo caminho, talvez seu brinquedo. Ela chorou. E continuou a chorar por mais que eu dissesse que ficaríamos a salvo dos malditos. Parei apenas quando me pareceu segura a distância. E mesmo assim chorava. Por quê? Demonstrei tanta valentia, a salvei dos malditos. Sem nem questionar o que fizeram. E mesmo assim chorava. Não reconhecia todo amor necessário para realizar tal ato de fuga. Apenas chorava. Pedi-lhe um beijo. Um único beijo. Mas só sabia chorar. Ingrata. Tomei-lhe o beijo. Com toda a vontade acumulada desde a primeira vez que a vi. Nunca tinha beijado boca tão pequenina. Tão doce. Já descontrolado de desejo, pedia apenas que me amasse. Mas a desgraçada desatava a chorar. Maldita. Assim como o casal. Maldita. Ingrata. Já que gostava tanto de chorar, dei um bom motivo para chorar. Soquei-lhe a cara, e quanto mais chorava, mais a socava. Até que parou de chorar. Mas o medo parecia ter se transformado em algo maior. Pavor, horror. Ela não me amava. A pequenina não me amava. Havia me seduzido. Maldita. Merecia um castigo. Merecia a dor. O sangue. Tomei-a para mim. A possuí com toda a minha força. Com todo o meu amor. Ela voltou a chorar. Dessa vez, um choro mais intenso. Não tinha esse direito. Estava sendo castigada por me fazer sofrer. Não tinha o direito ao choro. Voltei a socá-la. Dessa vez sem parar. Na cabeça. No peito. Na costela. Até quebrar todos os seus ossinhos. Até que nunca mais chorasse. Como era linda a minha pequenina.

Elvis Marlon

7 comentários:

Anônimo disse...

Muito triste, mais muito bem bolado ! adorei menino, continue assim que você vai loooonge =)
beijo grande !

Alma Sensível disse...

Nossa! organização textual maravilhosa. Criei a cena enquanto eu lia, sofri um tanto também, e questionei: Será isso mesmo?
Triste, mas muito bom!

Beijos meus,
Andreza Landes

Anônimo disse...

q malvado. :/ Bem bolado, mas malvado. :/ Bjosss!

Jean Carlos Luz disse...

Caro Elvis.

Me chamo Jean Carlos. Sua pessoa me fora indicada por sua prima, a saber, Nathália Castro [www.nathaliacopenhagen.blogspot.com].

Apreciei a sua "peça"...o drama da conquista dessa personagem há pouco narrada em sua missiva. O conflito que passara na administração dessa emoção e a constatação de que "Havia me seduzido"; sim, essa confissão foi de grande valor poético no quesito denúncia do imperativo feminino sobre a concepção hormonal masculina, mas também eloquente na proposição de domínio desse mesmo imperativo feminino...no caso a obra relata o uso estrito a força, mas...essa força bem que poderia ser o imperativo da palavra que a todos domestica. Não é? Pensando sobre isso, escrevi outr'ora uma poesia contando esse conflito do feminino com o masculino, os desejos...o resto é a interpretação do leitor.

Tomo a liberdade de postá-la aqui para que possas meditar sobre a minha paisagem sentimental:

Melanínica Afrodite,
Dize para o poeta teu,
Que o estampido da augusta beleza,
Claro e entorpecedor,
Dos sentidos e da Razão,
Aos homens subjuga,
Aos animais domestica,
Selvagens, adocica...
Às demais mulheres a inveja provoca.
Mas aos sábios e serenos homens,
De augusta Razão,
De sentidos lapidados,
E com palavra afinada,
Com esbelto poder,
Controla e faz da bela mulher, mulher,
Objeto de pensamento e de seus atributos,
Figura de linguagem,
Para melhor cantar.

Cada qual com o seu estilo, parece ter dito a mesma coisa, por caminhos distintos. Eis aí a sinuosa Natureza.

Obrigado pelo espaço para reflexão e mande lembranças para a amiga Nathália!

Do sempre teu,
Jean Carlos Luz.

Jean Carlos Luz disse...

Olá Elvis!

Bem...meio constrangido por não ter percebido - erro crasso - que a "mulher" era uma criança...

Ai...até para digitar está difícil...

Que desculpa formular para não ficar tão pasmo?

Não tenho desculpas! Foi falta de atenção, ou, transferi minhas querelas com as mulheres [kkk] para o seu texto!

Poderia dizer que do ponto de vista da dominação e / ou luta dos sexos pude ter acertado na interpretação, mas mesmo assim fica a dívida de ter sido induzido pela peça do poeta! Ah! Agora sei por que Platão tinha tanta raiva dos poetas: são criadores de simulacros. Sim, você simulou uma possibilidade de interpretação [aparência] mas tratava d'outra coisa [essência da obra]. A velha briga filosófica de essência x aparência. Estou "rubro" de vergonha. Escorreguei na aparência. Reconheço: escreves bem.

Abraços, amigo.
Jean Carlos Luz.

Luciana disse...

O texto é forte e objetivo. A forma que usou para descrever a cena nos faz compreender o personagem em sua essência. Me fez compreender e entrar em sua loucura. Entrar na cabeça de um louco é ser tão louco quanto... rsrsr Muito bom mesmo!! Parabéns!!!
Bjssssss

Baú do Goulart disse...

Pegando a onda do Jean Carlos, Eloquente sua narrativa, embora temerosa e rebuscada... desculpa, mas não sou tão culto. A olhos vistos notasse que és um bom escritor, porém seguindo a visão da Luciana que diz " Entrar na cabeça de um louco é ser tão louco quanto...". Afirmo, tenho medo de você. Te afasta da minha sobrinha!!!!

Parabéns querido!!!
Forte abraço

Richard Goulart