Xingado, vê o sinal abrir e foge à buzinadas. A senhora maltratada e prudente que segue pela calçada donde, após a próxima paragem dos carros, atravessará a rua, desvia-se. O guarda de trânsito, que de tanto multar há de se tornar um “multante”, concentrado para grudar no vidro do “Chevette” a multa, ignora a cena que é plenamente acompanhada pelo vendedor de eletrodoméstico que tem se chateado com a queda nas vendas. O povo que perambula pelo comércio, atenta para a correria do moleque. A senhora maltratada, prudente e medrosa ao perceber que, apesar do desvio, não evitará o encontro, apavora-se e grita chamando atenções para cena. O moleque segue cruzando a praça em direção a rua paralela à do sinal que acabou de lhe abrir desfavoravelmente.
- Perdeu! – É essa exclamação surgida discretamente no pé do ouvido do aposentado acabado de sair do caixa eletrônico que após arrepiar-lhe a nuca, o amedronta a ponto de imediatamente mijar-se todo.
- Com todo o respeito. Passa essa merreca do bolso esquerdo do senhor, sem explanar e tá tranqüilo! – Com este pedido irrecusável seu Nelson em outros tempos, “baixaria a porrada”, mas os outros tempos passaram e já não lhe havia mais vigor físico para acompanhar a cabeça sã e sábia. Passou a merreca, envergonhando-se em seguida com a mancha que crescia nas pernas da calça.
A viatura que acabava de descer a favela munida do “arrego”, foi interceptada pelo chinês que deixou o cliente esperando o pastel com caldo de cana para apontar o guri que atravessava a praça correndo e estranhado pelos transeuntes. Dada a marcha ré, os policiais saem do carro em ação. O guri, atravessada a praça, ignorando os tantos olhares feios e vulgares das pessoas, caminha em direção ao carro de Patrícia, parado no sinal, que graças ao arrego aceito pelos policiais, pôde subir e descer o morro, tranqüila. Antes de abordá-la, o menino sujo avista Fumaça, do outro lado da rua, vapor do morro próximo e assaltante, com o qual compra seu “crack de cada dia”. - Este último ofício, assaltante, fumaça acabara de exercer na quadra ao lado, ao abordar um aposentado. – O guri acena para Fumaça, que, preocupado em ser discreto, resolve não co-responder. Contudo, percebe a polícia, vindo pelas costas do guri que, após ter ficado “bolado” com o desprezo de fumaça, volta-se para o carro de Patrícia, metendo a mão no bolso para tirar algo, quando é derrubado por um chute nas costas, vindo de um dos policiais que em seguida aponta-lhe o fuzil na cara.
- Cadê a arma, porra? – Esbraveja o segundo policial que vinha logo atrás.
Fumaça, bandido “das antiga”, disfarçadamente, segue seu caminho, ainda preocupado em ser perseguido.
Ouvi-se ainda “piadinhas” de um ou outro que acompanhou a cena desde o início.
Os policiais, grossos, ainda cutucavam o menino quando, este, tirou do bolso o que tinha. Seu instrumento de trabalho, a "franela".
sábado, 5 de setembro de 2009
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Um santo sossego
"Pro" santo sarado de cor
Cegou-se bem cedo
na cela do governador
Se sentia medo
no morro ele não demonstrou
"Sentou, sempre, o dedo"
nos "home" que o aprisionou
E a preta princesa
que sonhou com ele casar,
aos berros no beco,
babando, chorando, sem ar
E os negros malandros
Parceiros, fugidos de lá,
pipocam fuzis e pistolas
da "P" militar
Mataram uma cria do morro
Moleque de disposição
Valente e fiél à seu povo
Bem-vindo no mundo, foi não
Elvis Marlon
"Pro" santo sarado de cor
Cegou-se bem cedo
na cela do governador
Se sentia medo
no morro ele não demonstrou
"Sentou, sempre, o dedo"
nos "home" que o aprisionou
E a preta princesa
que sonhou com ele casar,
aos berros no beco,
babando, chorando, sem ar
E os negros malandros
Parceiros, fugidos de lá,
pipocam fuzis e pistolas
da "P" militar
Mataram uma cria do morro
Moleque de disposição
Valente e fiél à seu povo
Bem-vindo no mundo, foi não
Elvis Marlon
Testemunha Assassina ou À Sangue de Abelha ou Assassinato da suicída
Ela também cansou
Cansou de seu mel que é roubado
Cansou da falta de flor
Cansou do trabalho safado
Do homem que sempre a explorou
Cansada me veio avoada
Já certa de não querer mais
Cansada, me fez testemunha
Cansada, cansada demais
Na luz da Lãmpada que é cara e não pago
Pois gato ruge à leão
Pancada e zumbido de abelha
Abelha cansada do não
De lâmpada à faca, veneno
Coisa capaz de matar
De abelha à Ícaro triste
Pé na porta, suicídio ao ar
Zumbido, agonia, choque
Cansada e triste quer fim
"Cheirada", "pancada, rock
Mostrando tudo para mim
Eu, mudo, calado
O fim sem querer começar
Abelha gemendo no teto
Pé na porta, suicídio ao ar
Abelha me mata e não morre
O fim sem querer começar
cançado, safado, "pancado"
Pé na porta, suicídio ao ar
A vida é mais forte que a morte
Demora mais para acabar
Abelha é mais forte que o homem
Nada da morte chegar...
Nada da morte chegar!!!
Eu, "puto". Abelha não morre
Contudo, porém, morro já
Cançado, safado, "pancado"
resolvo a morte, ir buscar
A trouxe pelos cabelos
Após espancá-la. Sangrar
O ódio que a abelha me deu
À morte, vendi. Fiz pagar
Dei à abelha o que ela, só, foi incapaz
Dei-lhe o descanso, sossego
Dei-lhe o mel
Dei-lhe a flor fugaz
Elvis Marlon
Cansou de seu mel que é roubado
Cansou da falta de flor
Cansou do trabalho safado
Do homem que sempre a explorou
Cansada me veio avoada
Já certa de não querer mais
Cansada, me fez testemunha
Cansada, cansada demais
Na luz da Lãmpada que é cara e não pago
Pois gato ruge à leão
Pancada e zumbido de abelha
Abelha cansada do não
De lâmpada à faca, veneno
Coisa capaz de matar
De abelha à Ícaro triste
Pé na porta, suicídio ao ar
Zumbido, agonia, choque
Cansada e triste quer fim
"Cheirada", "pancada, rock
Mostrando tudo para mim
Eu, mudo, calado
O fim sem querer começar
Abelha gemendo no teto
Pé na porta, suicídio ao ar
Abelha me mata e não morre
O fim sem querer começar
cançado, safado, "pancado"
Pé na porta, suicídio ao ar
A vida é mais forte que a morte
Demora mais para acabar
Abelha é mais forte que o homem
Nada da morte chegar...
Nada da morte chegar!!!
Eu, "puto". Abelha não morre
Contudo, porém, morro já
Cançado, safado, "pancado"
resolvo a morte, ir buscar
A trouxe pelos cabelos
Após espancá-la. Sangrar
O ódio que a abelha me deu
À morte, vendi. Fiz pagar
Dei à abelha o que ela, só, foi incapaz
Dei-lhe o descanso, sossego
Dei-lhe o mel
Dei-lhe a flor fugaz
Elvis Marlon
segunda-feira, 6 de julho de 2009
crônica em homenagem a Michael Jackson
Michael Jackson não morreu. Ele vive como a muito não vivia. No trombadinha, que pela primeira vez assistiu a uma de suas performances fantásticas na televisão do camelô da Central do Brasil ou do Mercado Popular de Caxias, no Meia Hora do operário, na “Quem?” da mulher do dono da fábrica, na qual trabalha o operário; no “TV Fama”, nos passos de funk que nasce no sangue dos favelados, no meu padrasto que é cinco anos mais velho que Michael e acompanhou toda sua carreira, na minha mãe que era louca por Elvis Presley mas ouviu Michael em algum momento, em mim, que nasci em 1988...
Ontem, vindo de um trabalho falido, cruzei com camelôs. Talvez este fato tenha me influenciado à citação no parágrafo anterior – Michael Joseph Jackson estava lá, preso à grade junto a outros piratas. Desde sua morte, à quatro dias atrás, eu já sonhava com isto: a chegada de Michael às feiras, às praças, aos becos da Uruguaiana, e claro, aos camelôs caxienses, pois para ir ao centro do rio, gasto “brincando”, seis reais e setenta centavos. Ao avistar “Thriller”, entrei no que em Física chamamos de movimento retardado, até chegar ao repouso. De fronte à grade “camelômica”, “marquei um dez” conferindo os DVDs. Havia quase toda a discografia do rei do pop – de anti-mão, esclareço que não sou a favor da pirataria, mas à popularização da arte. E neste contexto, devo admitir, a pirataria é populista – Após conferir a carteira, e ter certeza de que além do valor necessário para a passagem do ônibus, me havia dez reais, não hesitei. Fechei negócio. Adquiri dois DVDs de Michael. Entre eles Thriller que, segundo o camelô, figura no Guinness como o disco mais vendido da história, adquirido por mais de cento e quatro milhões de pessoas. Entusiasmou-me francamente com estas informações. Chegamos, inclusive, a discutir sobre a considerável inflação que sofreria esse número, se levada em consideração à venda pirata. Mas deixemos isto de lado. Contente com a compra, segui em direção ao ponto de ônibus. Lá, embarquei. Em casa, eu, meus irmãos e minha mãe pudemos redescobrir o admirável artista que, em nossa memória, apagava-se aos poucos, em meio a polêmicas e difamações. Foi um verdadeiro êxtase assistir à suas performances. Meu padrasto, desastrosamente, invadindo a sala num ridículo moonwalker, juntou-se a nós. E assim, permanecemos até o fim da exibição.
Qualquer coisa parecida com tristeza, tocou-me. Talvez me estivesse “caindo a ficha” da perda. Talvez à todos na sala. Disfarçamos a comoção uns para os outros, menos meu padrasto, que descuidou-se de uma lágrima.
Elvis Marlon
Ontem, vindo de um trabalho falido, cruzei com camelôs. Talvez este fato tenha me influenciado à citação no parágrafo anterior – Michael Joseph Jackson estava lá, preso à grade junto a outros piratas. Desde sua morte, à quatro dias atrás, eu já sonhava com isto: a chegada de Michael às feiras, às praças, aos becos da Uruguaiana, e claro, aos camelôs caxienses, pois para ir ao centro do rio, gasto “brincando”, seis reais e setenta centavos. Ao avistar “Thriller”, entrei no que em Física chamamos de movimento retardado, até chegar ao repouso. De fronte à grade “camelômica”, “marquei um dez” conferindo os DVDs. Havia quase toda a discografia do rei do pop – de anti-mão, esclareço que não sou a favor da pirataria, mas à popularização da arte. E neste contexto, devo admitir, a pirataria é populista – Após conferir a carteira, e ter certeza de que além do valor necessário para a passagem do ônibus, me havia dez reais, não hesitei. Fechei negócio. Adquiri dois DVDs de Michael. Entre eles Thriller que, segundo o camelô, figura no Guinness como o disco mais vendido da história, adquirido por mais de cento e quatro milhões de pessoas. Entusiasmou-me francamente com estas informações. Chegamos, inclusive, a discutir sobre a considerável inflação que sofreria esse número, se levada em consideração à venda pirata. Mas deixemos isto de lado. Contente com a compra, segui em direção ao ponto de ônibus. Lá, embarquei. Em casa, eu, meus irmãos e minha mãe pudemos redescobrir o admirável artista que, em nossa memória, apagava-se aos poucos, em meio a polêmicas e difamações. Foi um verdadeiro êxtase assistir à suas performances. Meu padrasto, desastrosamente, invadindo a sala num ridículo moonwalker, juntou-se a nós. E assim, permanecemos até o fim da exibição.
Qualquer coisa parecida com tristeza, tocou-me. Talvez me estivesse “caindo a ficha” da perda. Talvez à todos na sala. Disfarçamos a comoção uns para os outros, menos meu padrasto, que descuidou-se de uma lágrima.
Elvis Marlon
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Conto Curto
Apesar do peso insuportável, ao vê-la, posou. Como se quisessem ridicularizá-lo, as maquiavélicas sacolas plásticas pesavam cada vez mais. Desnecessário. Já que o próprio, franzino que é, ousou ridiculamente, uma pose que julgou máscula. Algo semelhante ao que fazem os galãs televisivos, o que definitivamente não o é.
Havia acabado de deixar o mercado, grávido das tais maciças sacolas. A moça, a quem ele sempre se limitou a admirar mudamente, sem nunca ter-lhe oferecido um bom dia por falta de coragem justificável, pois, sequer, recebeu uma descompromissada fita da mesma; aproximava-se. Ambos pisavam a mesma calçada. Os punhos de nosso herói que inicialmente tomaram veemente as sacolas, a esta altura, lutavam para mantê-las alçadas nos dedos já torcidos e marcados.
Com sua caminhada ininterrupta, respirou fundo, manteve a pose e ao fitá-la assistiu e, em seguida, atuou em uma depressiva cena. De assalto, sofreu um esbarrão. Um sujeito grave ultrapassou-o rispidamente e seguiu em direção a admirada moça. Sem que lhe houvesse tempo para assimilar os fatos, presenciou a sova: O sujeito que lhe ultrapassara, sem cerimônias, passa a dar bofetadas na pequena, que não tarda a desesperar-se. Assustado, percebe a necessidade de agir, apesar do frio que lhe invade o estômago e da desorientação que lhe toma o espírito. Conclui que deve, inicialmente, desfazer-se das incômodas sacolas plásticas. Abandona-as francamente. Em uma tentativa desesperada, arrisca imobilizar o grosso sujeito, em vão. Sem dificuldades, este lhe acotovela a cara, o que patrocina-lhe uma dor insuportável ao ponto de, já caído, não lhe haver ânimo para erguer-se. O brutamonte volta a resolver-se com a moça atordoada. Transeuntes limitam-se a desviarem-se da balbúrdia, curiosos e cautelosamente apartados. Satisfeito, o brutamonte vai-se da mesma forma que surgiu. Sem expor uma palavra. Na calçada, ao chão, as já desengonçadas e derramadas sacolas plásticas acompanham nosso casal maltratado e atônito.
De uma coisa nosso falido herói podia servir-se contente, a moça, pela primeira vez, o notara.
Elvis Marlon
Havia acabado de deixar o mercado, grávido das tais maciças sacolas. A moça, a quem ele sempre se limitou a admirar mudamente, sem nunca ter-lhe oferecido um bom dia por falta de coragem justificável, pois, sequer, recebeu uma descompromissada fita da mesma; aproximava-se. Ambos pisavam a mesma calçada. Os punhos de nosso herói que inicialmente tomaram veemente as sacolas, a esta altura, lutavam para mantê-las alçadas nos dedos já torcidos e marcados.
Com sua caminhada ininterrupta, respirou fundo, manteve a pose e ao fitá-la assistiu e, em seguida, atuou em uma depressiva cena. De assalto, sofreu um esbarrão. Um sujeito grave ultrapassou-o rispidamente e seguiu em direção a admirada moça. Sem que lhe houvesse tempo para assimilar os fatos, presenciou a sova: O sujeito que lhe ultrapassara, sem cerimônias, passa a dar bofetadas na pequena, que não tarda a desesperar-se. Assustado, percebe a necessidade de agir, apesar do frio que lhe invade o estômago e da desorientação que lhe toma o espírito. Conclui que deve, inicialmente, desfazer-se das incômodas sacolas plásticas. Abandona-as francamente. Em uma tentativa desesperada, arrisca imobilizar o grosso sujeito, em vão. Sem dificuldades, este lhe acotovela a cara, o que patrocina-lhe uma dor insuportável ao ponto de, já caído, não lhe haver ânimo para erguer-se. O brutamonte volta a resolver-se com a moça atordoada. Transeuntes limitam-se a desviarem-se da balbúrdia, curiosos e cautelosamente apartados. Satisfeito, o brutamonte vai-se da mesma forma que surgiu. Sem expor uma palavra. Na calçada, ao chão, as já desengonçadas e derramadas sacolas plásticas acompanham nosso casal maltratado e atônito.
De uma coisa nosso falido herói podia servir-se contente, a moça, pela primeira vez, o notara.
Elvis Marlon
quarta-feira, 11 de março de 2009
Atuar é diversão de ator
Ator é possibilidade
Perdoe-me Arte por jurar-lhe amor
E entregar-me só pela metade.
Porém, o sol que tanto não busquei.
Hoje é meu traje favorito
A desvairada lua que ofusquei
A ela, juro amor no grito.
Ando tão feliz da vida
Bobo, besta, rindo à toa.
Mendigo de barriga cheia
Guri que solta pipa boa
Tagarelo sempre com Deus
“Bom dia!” dou a qualquer pessoa.
Revejo mais amigos meus
Saudades? Sim. Do meu coroa
De passo em passo
Traço minha trajetória
Faço, caço, até fracasso.
Correndo risco de vitória.
O tempo das coisas, respeito.
O segredo é foco, trabalho.
Defendo a família no peito.
Levanto quando às vezes falho
O cangote da preta, cheirei.
Da loira também quis cheirar
Pela branca me suicidei
Há a lua para testemunhar
Elvis Marlon
Ator é possibilidade
Perdoe-me Arte por jurar-lhe amor
E entregar-me só pela metade.
Porém, o sol que tanto não busquei.
Hoje é meu traje favorito
A desvairada lua que ofusquei
A ela, juro amor no grito.
Ando tão feliz da vida
Bobo, besta, rindo à toa.
Mendigo de barriga cheia
Guri que solta pipa boa
Tagarelo sempre com Deus
“Bom dia!” dou a qualquer pessoa.
Revejo mais amigos meus
Saudades? Sim. Do meu coroa
De passo em passo
Traço minha trajetória
Faço, caço, até fracasso.
Correndo risco de vitória.
O tempo das coisas, respeito.
O segredo é foco, trabalho.
Defendo a família no peito.
Levanto quando às vezes falho
O cangote da preta, cheirei.
Da loira também quis cheirar
Pela branca me suicidei
Há a lua para testemunhar
Elvis Marlon