sábado, 5 de setembro de 2009

Suspeitável sempre

Xingado, vê o sinal abrir e foge à buzinadas. A senhora maltratada e prudente que segue pela calçada donde, após a próxima paragem dos carros, atravessará a rua, desvia-se. O guarda de trânsito, que de tanto multar há de se tornar um “multante”, concentrado para grudar no vidro do “Chevette” a multa, ignora a cena que é plenamente acompanhada pelo vendedor de eletrodoméstico que tem se chateado com a queda nas vendas. O povo que perambula pelo comércio, atenta para a correria do moleque. A senhora maltratada, prudente e medrosa ao perceber que, apesar do desvio, não evitará o encontro, apavora-se e grita chamando atenções para cena. O moleque segue cruzando a praça em direção a rua paralela à do sinal que acabou de lhe abrir desfavoravelmente.
- Perdeu! – É essa exclamação surgida discretamente no pé do ouvido do aposentado acabado de sair do caixa eletrônico que após arrepiar-lhe a nuca, o amedronta a ponto de imediatamente mijar-se todo.
- Com todo o respeito. Passa essa merreca do bolso esquerdo do senhor, sem explanar e tá tranqüilo! – Com este pedido irrecusável seu Nelson em outros tempos, “baixaria a porrada”, mas os outros tempos passaram e já não lhe havia mais vigor físico para acompanhar a cabeça sã e sábia. Passou a merreca, envergonhando-se em seguida com a mancha que crescia nas pernas da calça.
A viatura que acabava de descer a favela munida do “arrego”, foi interceptada pelo chinês que deixou o cliente esperando o pastel com caldo de cana para apontar o guri que atravessava a praça correndo e estranhado pelos transeuntes. Dada a marcha ré, os policiais saem do carro em ação. O guri, atravessada a praça, ignorando os tantos olhares feios e vulgares das pessoas, caminha em direção ao carro de Patrícia, parado no sinal, que graças ao arrego aceito pelos policiais, pôde subir e descer o morro, tranqüila. Antes de abordá-la, o menino sujo avista Fumaça, do outro lado da rua, vapor do morro próximo e assaltante, com o qual compra seu “crack de cada dia”. - Este último ofício, assaltante, fumaça acabara de exercer na quadra ao lado, ao abordar um aposentado. – O guri acena para Fumaça, que, preocupado em ser discreto, resolve não co-responder. Contudo, percebe a polícia, vindo pelas costas do guri que, após ter ficado “bolado” com o desprezo de fumaça, volta-se para o carro de Patrícia, metendo a mão no bolso para tirar algo, quando é derrubado por um chute nas costas, vindo de um dos policiais que em seguida aponta-lhe o fuzil na cara.
- Cadê a arma, porra? – Esbraveja o segundo policial que vinha logo atrás.
Fumaça, bandido “das antiga”, disfarçadamente, segue seu caminho, ainda preocupado em ser perseguido.
Ouvi-se ainda “piadinhas” de um ou outro que acompanhou a cena desde o início.
Os policiais, grossos, ainda cutucavam o menino quando, este, tirou do bolso o que tinha. Seu instrumento de trabalho, a "franela".

3 comentários:

Náhira Brunelle disse...

Inocentes são culpados, os culpados se passam de inocentes.
Belo texto!!

Müller Nunes Leandro disse...

cara muito massa seu texto, tava circulando pelos blogs de amigos e vi num comentario.
Mas voltando ao texto, taantas mazelas sociais em uma única cena. E vc narra tão bem q o 'preconceito' eh sentido em nossa propria leitura, na qual um leitor mais despercebido, acostumado a finais felizes esperaria sim que o menino tivesse uma arma.
Belo texto!

Unknown disse...

tão atual. e quando deixará de ser?