terça-feira, 22 de julho de 2008

Sexta...

Apesar de nunca ter tocado no luxo, na luxúria sim. Essa a possuía ou “a” possuía essa: imagem forte e bem desenhada, cheia de curva. Do “cabra” de primeira bater os olhos e ficar alguns segundos, abestalhado. Com libido feito passarinho brabo se batendo na gaiola que o aprisiona. Os guris que naturalmente se encontram na “idade do macaco”, festejam na quinta à noite após o “bába” a chegada da manhã de sexta. Pois é o dia da moça comprar o pão, já que acorda cedo para ir ao cursinho semanal de computação que sua avó lhe matriculara. A caminho da padaria, vestindo seu shortinho de dormir, curtinho, que por debaixo da camisa de manga breve se esconde de vez; dá bom dia a quem estiver na rua, atiçando e renovando já pela manhã, a imaginação dos guris que curiosamente e exclusivamente naquele dia aproveitam para tomar um demorado banho após a sagrada, consagrada e essencial cena matinal de sexta. Prazer esse, que é lhes dado gratuitamente, faça sol ou chuva, acordam com o cantar do galo, assim podem aproveitar ao máximo a primeira banda do dia, pois a segunda é dedicada a difícil e muitas vezes vã tentativa de obter instrução, em alguma escola de algum governo desgovernado.(Difícil, pois além de todas as dificuldades que alguns cansam de falar para que outros cansem de ouvir, o que é oferecido para meu povinho é um quebra-cabeça faltando peça, como se já não bastasse oferecer-lhes um quebra-cabeça.).- Lá vem Maria! - Diz Benedito em seu grito vestido de sussurro, esperando que alguém que bem conhece ponha a cara no muro do outro lado da rua. Mal-acabado seu ato de grito sussurrado, já se vê Zé afobado, pondo a cabeça no muro. Ingênuo, fora Benedito ao pensar que em sussurrar seu grito, apenas Zé iria ouvi-lo. Pois Maria, que a muitas sextas de sua vida repetia o mesmo ritual pela manhã, já percebia o inofensivo e até agradável assanhamento dos guris. Por isso fazia questão de dar-lhes um belo bom dia acompanhado de um belo sorriso. E lá ficavam Zé e Benedito, um de cada lado da rua, cada qual no seu muro com seus curtos, porém, paradisíacos segundos de “abestalhamento”, enquanto Maria passava, sorrindo de canto de boca, indo ao encontro da padaria. O que “encucava” Maria é que durante seus quase completos vinte e três anos, nunca os reencontrava na volta para casa. Mas era curiosidade passageira que logo caçava seu rumo para na próxima sexta voltar.

Elvis Marlon

Nenhum comentário: